*Quer ler do começo? desça a “barra de rolagem” xD
Rosália acordou atônita: Abriu os olhos sobressaltados, impulsionou ligeiramente seu corpo para frente – como se quisesse escapar de uma realidade – e sentou-se sobre a cama. O barulho do disparo ainda ecoava em sua cabeça, que sonho mais estranho ela tivera! Toda aquela transcendência cronológica, aqueles diálogos, aquela submissão ao amor, o estado ignóbil em que ela se encontrava naquele impertinente sonho… Tudo a afogava em um mar arredio e doloroso.
Era uma manhã de sábado e Rosália não tinha nada para fazer. Nenhuma tarefa de demasiada importância que a obrigasse se eximir do aconchego de seus lençóis e do furor de seus pensamentos. Ficou ali, procurando deitar-se de maneira confortável. Depois de umas viradas, encontrou conforto na posição fetal e acalento no travesseiro de penas de ganso. Pôr-se a pensar novamente no que sonhara. Tudo estava naquele sonho, tudo! Toda a sua história, tanto no mundo real, quanto no mundo dos seus devaneios.
Ele estava lá, cheio de desejos por seu corpo, porém vazio de sentimentos por sua alma. Lá estava também o mundo de promessas incabíveis, as seqüências de palavras tão levianas que chegavam a ser pecaminosas. Sim, pecaminosas, pois para ela o pecado estava na arte de iludir, de enganar. Não se trata do pecado disseminado pelas religiões, mas sim o para com o próximo, aquele que machuca e corrói.
O sonho relatava bem as abstrações de seu subconsciente, como era claro tudo aquilo! A festa era o mundo, eram as pessoas em sua volta. As roupas finas e desalinhadas que trajava era o paradoxo de sua aparência interna e externa. A sua performance era uma analogia a sua vontade de revelar a seu amado a consistência de seu amor, o álcool lhe dera a coragem.
Sua rival também estava presente, sem formas aparentes. Obviamente porque Rosália sabe o mínimo a respeito daquela mulher. No fim, aquele tiro e o despertar repentino… Nem em sonho aquela sofrida história amorosa se findava com clareza!
Turbilhões de pensamentos invadiram aquela cabeça passional, pois não era apenas o coração daquela mulher que era susceptível, era toda ela, da cabeça aos pés, interna e externamente.
O medo apossou-se dela. Temia! Porquanto sabia que sabia. E aquele saber, era insuportável. O saber do saber de que tudo o que tinha em mente, tudo o que vivia era ilusão: a mulher que ela era não passava de uma efemeridade sem importância na vida daquele homem. Mesmo que em uns poucos momentos ele demonstrasse alguma coisa que chegasse perto do contrário, ela sabia, lá no seu âmago, que tudo era fantasia.
Mas, ainda assim, ansiava por ele, desejava-o, era um vício. Sempre queria uma overdose daquela “droga” e já não se importava mais se depois dos átimos de mel, viria a eternidade de fel.
Veio a raiva, o ódio de si mesma, por saber que mesmo com tanta indiferença, ela o amava. Lembrou-se dos planos de conquistá-lo, dos obstáculos que estaria disposta a enfrentar para ter o seu amor, pensou nos seus princípios, no seu orgulho ferido. Pensou nos conselhos que obtivera a favor e contra seu amor bandido, não sabia mais o que fazer, precisava de uma força decisiva e que a orientasse! Contudo, infelizmente, Rosália já não sabia mais como buscá-la dentro de si…
Agora aquela frágil mulher ouvia vozes. Vozes de pessoas conhecidas e com as mais variadas soluções para o seu impasse: ir ou não, além? As vozes, o murmurinho em sua cabeça se calou de repente e tudo ficou quieto.
O silêncio era enlouquecedor.
Rosália abraçou mais forte o travesseiro. Chorou.
Continua…