Apenas Rosália…

Part 2

Agosto 29, 2008 · Deixe um comentário

*Quer ler do começo? desça a “barra de rolagem” xD

Rosália acordou atônita: Abriu os olhos sobressaltados, impulsionou ligeiramente seu corpo para frente – como se quisesse escapar de uma realidade – e sentou-se sobre a cama. O barulho do disparo ainda ecoava em sua cabeça, que sonho mais estranho ela tivera! Toda aquela transcendência cronológica, aqueles diálogos, aquela submissão ao amor, o estado ignóbil em que ela se encontrava naquele impertinente sonho… Tudo a afogava em um mar arredio e doloroso.

Era uma manhã de sábado e Rosália não tinha nada para fazer. Nenhuma tarefa de demasiada importância que a obrigasse se eximir do aconchego de seus lençóis e do furor de seus pensamentos. Ficou ali, procurando deitar-se de maneira confortável. Depois de umas viradas, encontrou conforto na posição fetal e acalento no travesseiro de penas de ganso. Pôr-se a pensar novamente no que sonhara. Tudo estava naquele sonho, tudo! Toda a sua história, tanto no mundo real, quanto no mundo dos seus devaneios.

Ele estava lá, cheio de desejos por seu corpo, porém vazio de sentimentos por sua alma. Lá estava também o mundo de promessas incabíveis, as seqüências de palavras tão levianas que chegavam a ser pecaminosas. Sim, pecaminosas, pois para ela o pecado estava na arte de iludir, de enganar. Não se trata do pecado disseminado pelas religiões, mas sim o para com o próximo, aquele que machuca e corrói.

O sonho relatava bem as abstrações de seu subconsciente, como era claro tudo aquilo! A festa era o mundo, eram as pessoas em sua volta. As roupas finas e desalinhadas que trajava era o paradoxo de sua aparência interna e externa. A sua performance era uma analogia a sua vontade de revelar a seu amado a consistência de seu amor, o álcool lhe dera a coragem.

Sua rival também estava presente, sem formas aparentes. Obviamente porque Rosália sabe o mínimo a respeito daquela mulher. No fim, aquele tiro e o despertar repentino… Nem em sonho aquela sofrida história amorosa se findava com clareza!

Turbilhões de pensamentos invadiram aquela cabeça passional, pois não era apenas o coração daquela mulher que era susceptível, era toda ela, da cabeça aos pés, interna e externamente.

O medo apossou-se dela. Temia! Porquanto sabia que sabia. E aquele saber, era insuportável. O saber do saber de que tudo o que tinha em mente, tudo o que vivia era ilusão: a mulher que ela era não passava de uma efemeridade sem importância na vida daquele homem. Mesmo que em uns poucos momentos ele demonstrasse alguma coisa que chegasse perto do contrário, ela sabia, lá no seu âmago, que tudo era fantasia.

Mas, ainda assim, ansiava por ele, desejava-o, era um vício. Sempre queria uma overdose daquela “droga” e já não se importava mais se depois dos átimos de mel, viria a eternidade de fel.

Veio a raiva, o ódio de si mesma, por saber que mesmo com tanta indiferença, ela o amava. Lembrou-se dos planos de conquistá-lo, dos obstáculos que estaria disposta a enfrentar para ter o seu amor, pensou nos seus princípios, no seu orgulho ferido. Pensou nos conselhos que obtivera a favor e contra seu amor bandido, não sabia mais o que fazer, precisava de uma força decisiva e que a orientasse! Contudo, infelizmente, Rosália já não sabia mais como buscá-la dentro de si…

Agora aquela frágil mulher ouvia vozes. Vozes de pessoas conhecidas e com as mais variadas soluções para o seu impasse: ir ou não, além? As vozes, o murmurinho em sua cabeça se calou de repente e tudo ficou quieto.

O silêncio era enlouquecedor.

Rosália abraçou mais forte o travesseiro. Chorou.

Continua…

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Part 1

Agosto 25, 2008 · 4 Comentários

Caro leitor, por favor, carregue esta música, e acione o play antes de começar a leitura:

Foi com uma taça de Martini nas mãos, cabelos sensualmente desarrumados, maquiagem borrada, salto quebrando e vestido vermelho justo e amarrotado que ela adentrou o bar “D’luxe”.

Seu objetivo era só um: encontrar ele. Aquele que a faz sofrer tanto. Ele que promete e não cumpre. Ele que só com a “outra” quer ficar.

Ela entrou já bêbada, tomou de um dos homens um cigarro, deu uma longa tragada e uma passada de olho pelo local e o achou. Fitou-o ordinariamente. Como se fosse tomar uma atitude bastante decidida subiu ao palco, tomou o microfone nas mãos – interrompendo a jovem que interpretava uma canção francesa – e começou a cantar e dançar provocando a todos do bar. Seu comportamento era no mínimo vergonhoso. Os homens a desejavam e as poucas mulheres que se encontravam no local a invejavam. Ela sentava no piano, cruzava as pernas, acariciava o pianista, descia e subia no pedestal do microfone, esfregava seu corpo sensualmente pelas pilastras ao longo do salão, passava as mãos nos cabelos, começou a chorar… Lágrimas negras se misturavam a seu rímel caríssimo, que agora se esvaia junto a sua tristeza.

Leopoldo era o seu nome. Como ela conseguia tirá-lo do sério! Como era atrevida! A esposa estava ao seu lado, por certo era uma tonta, sem perceber que os movimentos circulares com o dedo indicador da louca apaixonada eram apontando para o seu esposo. Rosália era mesmo audaz.

Passando de todos os limites, largou a bebida limpando a boca suja de álcool, ajoelhou aos pés de seu amante, pegou a sua mão e com os dentes tirou a aliança que ali estava. Só assim a pata da Bernadete compreendeu o que se passava atirando-se pra cima da insolente Rosália iniciando um combate contra sua, agora, inimiga. Como briga em bar é que nem rastro de pólvora, logo outros compraram desavenças das quais nada tinham a ver com o assunto. Estava armada a rixa.

Leopoldo sem saber o que fazer, tomou a sua audaciosa amante pelos braços levando-a para fora do “D’luxe”.

- Ficaste louca?! Entre aí já! – apagou o cigarro, deu a volta e entrou no carro.

Aos gritos, Rosália dizia para soltá-la, pois, a única coisa que dele desejava era o seu corpo, o seu amor. Enquanto aquela que a tudo isso tinha, estava na confusão gritando pelo seu marido que já estava ligando a ignição do carro.

- Eu te amo, Leopoldo! – atirando-se nos braços do rapaz.

- Rosália! Ficaste louca?! Estou dirigindo!

- Eu te quero agora, Leopoldo! Possua-me!

As investidas de Rosália fizeram com que Leopoldo perdesse a direção acontecendo uma derrapagem e quase batendo em outro carro. Freando desesperadamente, sua amante que não usava o cinto, bateu com a cabeça no porta-luvas.

- Por Deus! Está bem? Machucou?

- Estou! – Aproveitando a oportunidade do rosto do seu querido tão próximo, dando-lhe um beijo apaixonado.

- Estás completamente louca!

- Oh sim! Louca por ti, meu amor!

- Louca… Louca… Louca… – Leopoldo se entregou aos beijos ardentes de Rosália.

- Esse teu perfume me deixa louco! Oh Deus… Porque me provoca tanto…

- Diz que preferes mais a mim que a ela!

- Sim… Mil vezes mais!

- Sou eu quem te deixa louco? Sou eu o prólogo dos teus sonos? Em mim que tu pensas quando com ela estás?

- Penso em ti… Penso no teu corpo nu… Em tua pele morena…

- Então largue-a!

- Leopoldo, sujo de batom e surpreso disse: – Sabes que não posso! A família dela tem posses! Rosália… Minha querida… Prometo que a largarei assim que toda sua riqueza estiver aqui em minhas mãos!

- Matemos a miserável então! E fugiremos juntos… Vou contigo onde fores, meu amor…

- Estás louca… Louca!

- Eu estou bem, sofro apenas do mal de amar. E pare de me chamar de louca! Embora deva estar mesmo… – Correndo, ela saiu do carro debaixo de uma chuva torrencial.

- Leopoldo inconformado grita: – Não vá, Rosália! Ainda viveremos juntos, acredite em mim!

- Não acredito em mais nada que venha de ti, Leopoldo. Tu és a minha ruína!

Ele corre até ela prendendo-a em seus braços falando bem perto de tua boca… : – Mas é a mim que desejas… Que queres em tua cama, possuindo-te como mereces…

- Te quero em minha cama, em minha vida, em minha alma!

Enquanto isso ao longe se ouve uma voz grasnada berrando: – Leopoldo!

Rosália grita: – Vai-te pro inferno, demônio, desgraçada, maldita! – Era a esposa de Leopoldo que o procurava.

-Shhhh! Aquieta-te! Ela pode ouvir!

- Acabaremos com aquela leviana agora. É a mim que queres, meu amor, eu sei.

- Já disse a ti, não posso, será possível que é tão difícil que entendas, pombas!

- Construiremos uma vida junto, enriqueceremos. Te darei amor, te darei filhos.

- Eu… Não posso… Perdoa-me… Não me abandones…

- Não posso viver em segundo plano, Leopoldo. Amo-te, mas não suportarei. Morro aos poucos quando penso que outra beija tua boca, tem teu corpo. Não quero mais ser tua rapariga!

- Mas eu prometo que isso será somente por algum tempo, confias em mim, minha querida!

- Quanto tempo mais? Já tem três anos deste martírio meu!

- Pensas que também não sofro com isto? Se com ela fico, é para um bom futuro ao teu lado!

- Mas é somente a ti que quero. Sem bens, sem posses, só a ti…

- Não é tão fácil quanto tu pensas…

- É, meu amor, é sim! Pensas que eu sofro menos apenas porque gozo da juventude ainda! Mas mostrarei a ti do que sou capaz pra ter o amor teu só para mim…

E num ato subitamente louco, Rosália puxa uma arma prata carregada, que se encontrava presa por um suporte em sua coxa esquerda e diz: – Só peço que queiras…

- Penso que estás devidamente doida, Rosália! Que pretendes com essa arma?

- Quero matá-la e fazer amor contigo em cima do sangue que dela jorrará.

- Rosália!!

Um tiro.

Continua…

*Uma obra de: Terena Cardoso e Clara Sadê.

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